Atualizado em 22 de junho de 2026
Segurança pública na redação do ENEM 2026: dados e repertório
42.590 homicídios em 2024, menor patamar histórico — mas 77% das vítimas são negras. Dados do Atlas da Violência 2026, repertório e proposta para a redação.
Resumo — o que você vai aprender
- Em 2024, o Brasil registrou 42.590 homicídios — menor número da série histórica do IPEA —, mas 77% das vítimas eram negras, com taxa de homicídio 170% superior à de não negros, segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP).
- 19.801 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados em 2024, taxa de 42,2 por 100 mil — o dobro da média nacional; entre 2014 e 2024, foram 301.825 jovens mortos.
- Os dados do Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP, publicado em maio de 2026) são a referência acadêmica mais usada em questões de Ciências Humanas e o repertório científico mais aceito em redações sobre violência.
- A proposta de intervenção nota 1000 precisa ter agente, ação, meio, finalidade e efeito esperado — 'o governo deve combater a violência' não tem nenhum desses elementos.
- Abdias do Nascimento (O Genocídio do Negro Brasileiro, 1978), Foucault (Vigiar e Punir, 1975) e Bauman (Medo Líquido, 2006) são os três autores com maior pertinência para o tema.
Em 2024, o Brasil registrou 42.590 homicídios — o menor número desde que o IPEA iniciou a série histórica, segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP, publicado em maio de 2026). A taxa caiu para 20,1 mortes por 100 mil habitantes — redução de 7,4% em relação a 2023. Mas o mesmo relatório revela que 77% dessas vítimas eram negras, o equivalente a uma média de 89,9 pessoas negras assassinadas por dia. Quando a banca do ENEM propõe um tema de segurança pública, não quer uma opinião sobre bandidagem: quer que você enxergue essa tensão, a contextualize historicamente e proponha uma saída com agentes, mecanismo e finalidade definidos.
Este guia reúne os dados mais recentes, o repertório sociocultural que a banca valoriza e a estrutura de argumento para você chegar em novembro preparado para qualquer recorte que o INEP escolher.
Por que segurança pública tem grande chance de cair no ENEM 2026
O tema nunca foi o central de uma redação do ENEM — o que o coloca como candidato legítimo para novembro de 2026. O INEP não divulga critérios de seleção, mas os temas seguem um padrão histórico: afetam ampla parcela da população, têm raízes estruturais que exigem análise crítica e demandam soluções de política pública concretas. Segurança pública preenche os três critérios.
O perfil é ainda mais atraente para o ENEM porque:
- É interdisciplinar: conecta direitos humanos, sociologia da violência, história do Estado brasileiro, filosofia política e epidemiologia
- Tem desigualdade racial documentada: o ENEM valoriza temas onde a análise revela assimetrias que a média nacional esconde
- Tem lacuna entre lei e prática: a Constituição Federal (art. 144) declara a segurança como "dever do Estado e direito de todos" — os dados mostram que esse direito é distribuído de forma profundamente desigual
- É atual: o Atlas da Violência 2026, publicado em maio de 2026, renova o debate às vésperas da prova
Mesmo que segurança pública não caia como tema central, os dados aparecem sistematicamente em questões de Ciências Humanas e Sociologia — ter esse repertório garante desempenho em dois momentos diferentes da prova.
O diagnóstico: dados do Atlas da Violência 2026 (ano-base 2024)
O Atlas da Violência 2026, produzido pelo IPEA em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e publicado em maio de 2026, é a principal fonte de dados de homicídios no Brasil. Os dados têm ano-base em 2024.
A queda histórica — e o que ela esconde
| Indicador | Dado (2024) | Contexto |
|---|---|---|
| Total de homicídios | 42.590 | Menor da série histórica (iniciada em 2014) |
| Taxa nacional | 20,1 por 100 mil | Redução de 7,4% em relação a 2023 |
| Homicídios ocultos | 7.083 | Crescimento de 88,6% em relação a 2023 |
A queda é real. Pesquisadores apontam três fatores: mudanças demográficas (população mais velha significa menos jovens na faixa de maior risco), políticas de inteligência policial em estados específicos e períodos de trégua entre organizações criminosas. Mas o crescimento de 88,6% nos homicídios ocultos — mortes que não entram nas estatísticas por falhas no sistema de registro — sinaliza que o cenário pode ser pior do que os números principais sugerem. Subnotificação crescente é um argumento sofisticado na redação porque questiona a própria confiabilidade dos dados que a mídia noticia como boa notícia.
O recorte racial: o dado que a média esconde
A desigualdade racial é o dado estruturalmente mais relevante para quem vai argumentar sobre segurança pública. No mesmo ano em que o total de homicídios caiu:
| Grupo | Homicídios (2024) | Taxa por 100 mil | % do total |
|---|---|---|---|
| Pessoas negras | 32.820 | 27,3 | 77% |
| Pessoas não negras | ~9.770 | 10,1 | 23% |
A taxa de homicídios de pessoas negras foi 170,3% superior à de não negras. Em números práticos: no Brasil de 2024, uma pessoa negra tinha quase 2,7 vezes mais risco de ser assassinada do que uma pessoa branca, independentemente do estado ou da faixa de renda da região.
Usar esse dado na redação transforma uma tese genérica sobre "violência no Brasil" em análise que expõe causas estruturais — exatamente o que a Competência 2 mede quando pede "uso do conhecimento de mundo para construir argumentação".
Jovens e violência: 19.801 mortes em um ano
O Atlas da Violência 2026 confirma que a violência tem um perfil demográfico preciso: jovem, negro, do sexo masculino, periférico.
- 19.801 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados em 2024
- Taxa: 42,2 homicídios por 100 mil jovens — o dobro da média nacional
- Homens jovens: taxa de 78,0 por 100 mil — quase quatro vezes a média
- Entre 2014 e 2024: 301.825 jovens mortos — média de 75 por dia durante dez anos consecutivos
Esses dados têm peso especial em uma redação do ENEM porque a faixa etária das vítimas coincide exatamente com a de quem faz a prova. A banca valoriza quando o candidato percebe que o fenômeno analisado afeta diretamente sua geração — não é uma abstração distante.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA — Lei 8.069/1990) determina em seu artigo 4.º que é dever do Estado assegurar "com absoluta prioridade" os direitos à vida e à segurança de crianças e adolescentes. O contraste entre esse mandamento legal e os quase 20 mil jovens assassinados em 2024 é um argumento de falha estatal sólido, completamente fundamentado em fontes verificáveis.
Por que o problema vai além dos homicídios
A redação que apresenta apenas o número total de homicídios fica na superfície. Candidatos de maior pontuação identificam outros ângulos do mesmo fenômeno:
Encarceramento em massa sem ressocialização: o Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registram déficit histórico de vagas no sistema prisional. Taxas de reincidência superiores a 40% são citadas por especialistas como indicador de que o encarceramento sem ressocialização reproduz violência em vez de contê-la — um argumento forte para questionar a eficácia do modelo punitivista.
Desigualdade territorial: municípios do Norte e Nordeste concentram historicamente as maiores taxas de homicídio do país. Esse padrão aparece regularmente em questões de Geografia do ENEM, contextualizando violência como fenômeno associado à desigualdade regional e à ausência do Estado — não à "cultura" de populações específicas.
Sensação de insegurança vs. realidade estatística: paradoxalmente, pesquisas de percepção mostram que a sensação de insegurança costuma superar o que os dados de homicídio justificariam. O filósofo Zygmunt Bauman, em Medo Líquido (2006), interpreta esse fenômeno como produto das incertezas do mundo contemporâneo, onde o medo se dissocia das ameaças reais e vira uma condição permanente de ansiedade coletiva. Esse ângulo diferencia candidatos que analisam sociologicamente dos que apenas repetem manchetes.
Estrutura de argumento: duas linhas para a redação
Linha 1 — Desigualdade racial como causa estrutural
Tese: A violência letal no Brasil não é fenômeno aleatório — é expressão de uma desigualdade racial histórica que concentra as vítimas entre a população negra e revela falha sistemática do Estado em garantir o direito constitucional à vida de forma igualitária.
Argumento central: O intelectual Abdias do Nascimento, em O Genocídio do Negro Brasileiro (1978), documentou o processo histórico de extermínio físico e cultural da população negra como política de Estado. Décadas depois, o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP) confirma a persistência estrutural dessa dinâmica: 77% das vítimas de homicídio em 2024 eram negras, com taxa 170,3% superior à de não negros — não obstante a Constituição Federal de 1988 garantir, no artigo 5.º, a "inviolabilidade do direito à vida" sem qualquer distinção racial.
Linha 2 — Falha do modelo punitivista
Tese: O modelo de segurança pública centrado no encarceramento em massa revelou-se incapaz de reduzir a violência estrutural no Brasil, evidenciando a necessidade de reorientar as políticas para prevenção social.
Argumento central: Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), demonstrou que o sistema prisional moderno não foi projetado para ressocializar, mas para vigiar, classificar e controlar populações marginalizadas. No Brasil, essa lógica produz superlotação carcerária e altas taxas de reincidência sem redução efetiva da violência. Cidades que inverteram esse modelo — como Medellín, na Colômbia, que passou de uma das cidades mais violentas do mundo no início dos anos 1990 a referência internacional de política urbana integrada, com investimento em transporte, espaços culturais e oportunidades para jovens — mostram que a prevenção social produz resultados duradouros onde o encarceramento falhou.
Banco de repertório
| Tipo | Referência | Como usar |
|---|---|---|
| Dado oficial | Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP): 42.590 homicídios em 2024; 77% das vítimas negras | Argumento quantitativo, Competência 2 |
| Filosófico | Foucault, Vigiar e Punir (1975): prisão como controle social, não ressocialização | Crítica ao modelo punitivista |
| Intelectual brasileiro | Abdias do Nascimento, O Genocídio do Negro Brasileiro (1978) | Contextualização histórica da violência racial |
| Filosófico | Bauman, Medo Líquido (2006): medo como condição social contemporânea | Análise da percepção de insegurança |
| Legislativo | CF/1988, art. 5.º: inviolabilidade do direito à vida; art. 144: segurança como dever do Estado | Contraste lei × realidade |
| Legislativo | ECA — Lei 8.069/1990, art. 4.º: proteção integral da criança e do adolescente | Falha estatal quanto aos jovens |
| Internacional | ODS 16 (Agenda 2030 da ONU): paz, justiça e instituições eficazes | Compromisso global do Brasil |
| Comparativo | Medellín (Colômbia): de cidade mais violenta do mundo (1990s) a modelo de prevenção social urbana | Exemplo positivo para proposta de intervenção |
A proposta de intervenção
Para nota máxima na Competência 5, a proposta precisa ter agente, ação, meio, finalidade e efeito esperado. Uma proposta genérica como "o governo deve combater a violência" não contempla nenhum desses elementos de forma explícita.
Exemplo estruturado:
"O Governo Federal, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, deve ampliar o financiamento a programas de prevenção social da violência — como centros de capacitação profissional, esporte e cultura para jovens de 15 a 24 anos nas regiões com maior concentração de homicídios —, utilizando o Fundo Nacional de Segurança Pública como mecanismo de repasse, com metas avaliadas anualmente pelo IPEA, a fim de atacar as causas estruturais da violência e reduzir a letalidade de jovens negros, garantindo efetividade ao direito constitucional à vida estabelecido no artigo 5.º da Constituição Federal de 1988."
Repare: todos os cinco elementos estão explícitos — quem (Governo Federal/Ministério), o que (ampliar financiamento), como (Fundo Nacional de Segurança Pública), por quê (atacar causas estruturais) e efeito esperado (redução da letalidade, avaliada pelo IPEA).
Quem chega ao ENEM com dados verificáveis, dois autores bem contextualizados e uma proposta estruturada não depende de adivinhar o tema exato — esse arsenal funciona para qualquer recorte de desigualdade ou falha do Estado. O corretor de redação do ENEM Guru avalia sua proposta de intervenção elemento por elemento, apontando exatamente o que falta antes de qualquer prova real. Crie sua conta grátis em enemguru.com.br/sign-up e treine com os dados deste guia antes de novembro.
Perguntas frequentes
Segurança pública já foi tema da redação do ENEM?
Segurança pública nunca foi o tema central de uma redação do ENEM. Por isso, é um dos assuntos com maior probabilidade de aparecer nas próximas edições — o INEP evita repetir temas já cobrados. O assunto tem perfil ideal para o ENEM: afeta a maioria da população, tem raízes estruturais que exigem análise crítica, inclui desigualdade racial documentada e demanda política pública concreta. Mesmo que não caia como tema central, os dados sobre violência aparecem regularmente em questões de Ciências Humanas.
Posso citar o Atlas da Violência na redação do ENEM?
Sim — o Atlas da Violência é uma referência produzida pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), dois órgãos de pesquisa reconhecidos. Na redação, você pode citar assim: 'Segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP), o Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, com 77% das vítimas sendo negras.' Esse formato identifica claramente a fonte, o nome do relatório e o ano — o que satisfaz o critério de repertório legitimado cobrado na Competência 2.
O que é o Atlas da Violência?
O Atlas da Violência é um relatório anual produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ele compila dados de homicídios e outros indicadores de violência no Brasil a partir do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. É a principal referência acadêmica sobre violência no país e aparece frequentemente em questões do ENEM, especialmente nas provas de Ciências Humanas.
Por que a taxa de homicídios de pessoas negras é muito maior no Brasil?
O Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP) registrou que a taxa de homicídios de pessoas negras em 2024 foi de 27,3 por 100 mil habitantes, contra 10,1 para não negros — diferença de 170,3%. Pesquisadores como Abdias do Nascimento, em O Genocídio do Negro Brasileiro (1978), atribuem essa disparidade ao processo histórico de exclusão da população negra: privação de acesso à educação, moradia digna e oportunidades econômicas concentra populações negras em periferias com menor presença de serviços públicos de segurança e maior vulnerabilidade à violência. É uma desigualdade estrutural, não um fenômeno cultural.
Como fazer a proposta de intervenção sobre segurança pública?
A proposta de intervenção precisa ter cinco elementos: agente (quem age?), ação (o que faz?), meio (como?), finalidade (por quê?) e efeito esperado (qual resultado?). Exemplo para segurança pública: 'O Governo Federal, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, deve ampliar o financiamento a programas de prevenção social da violência — centros de capacitação e esporte para jovens de 15 a 24 anos em regiões com altos índices de homicídio —, via Fundo Nacional de Segurança Pública, com metas avaliadas anualmente pelo IPEA, a fim de reduzir a letalidade de jovens negros e garantir o direito constitucional à vida.' Cada elemento está explícito.
Posso defender a pena de morte ou o armamento da população na redação do ENEM?
Não é recomendado. A Constituição Federal de 1988 veda a pena de morte em tempo de paz (art. 5.º, XLVII). Propor algo explicitamente proibido pela Constituição demonstra desconhecimento da legislação brasileira e prejudica a Competência 2. Quanto ao armamento, você pode discutir o debate em torno do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/2003), mas a proposta de intervenção deve ser factível dentro do marco legal brasileiro — sem contradizer direitos fundamentais garantidos pela Constituição.
Qual a diferença entre homicídio e feminicídio para a redação do ENEM?
Homicídio é o crime de matar alguém (art. 121 do Código Penal). Feminicídio é a forma qualificada do homicídio prevista na Lei 13.104/2015 (Lei do Feminicídio), que ocorre quando a vítima é mulher e o crime é cometido em contexto de violência doméstica ou por razão do sexo feminino. Para a redação do ENEM, a distinção importa porque evidencia o recorte de gênero: não é violência genérica, mas violência estrutural contra mulheres. Usar 'feminicídio' em vez de 'homicídio de mulheres' demonstra domínio de repertório legislativo específico — algo que a banca valoriza na Competência 2.
Tenha sua redação corrigida nas 5 competências do ENEM
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