LinguagensLíngua Portuguesa

ENEM 2023 — Questão 31: Língua Portuguesa

Resposta: alternativa E

criticar o obstáculo promovido pelos usos especializados da linguagem.

A questão aborda a relação entre linguagem e poder, destacando como a linguagem pode ser uma ferramenta de exclusão social.

Eliane Brum

No princípio era o verbo. A frase que abre o primeiro capítulo do Evangelho de João e remete à criação do mundo, assim como também faz o Gênesis, é a mais famosa da Bíblia. A ideia de que o mundo é criado pela palavra, porém, é tão estruturante que está presente em outras religiões, para muito além das fundadas no cristianismo. Como humanos, a linguagem é o mundo que habitamos. Basta tentar imaginar um mundo em que não podemos usar palavras para dizer de nós e dos outros para compreender o que isso significa. Ou um mundo em que aquilo que você diz não é entendido pelo outro, e o que o outro diz não é entendido por você. O que acontece então quando a palavra é destruída e, com ela, a linguagem? Durante séculos, em diferentes sociedades e línguas, é importante lembrar, a linguagem serviu — e ainda serve — para manter privilégios de grupos de poder e deixar todos os outros de fora. Quem entende linguagem de advogados, juízes e promotores, linguagem de médicos, linguagem de burocratas, linguagem de cientistas? A maior parte da população foi submetida à violência de propositalmente ser impedida de compreender a linguagem daqueles que determinam seus destinos. Se o princípio é o verbo, o fim pode ser o silenciamento. Mesmo que ele seja cheio de gritos entre aqueles que já não têm linguagem comum para compreender uns aos outros. Nesse texto, a estratégia usada para convencer o leitor de que uma grande parcela da população não compreende a linguagem daqueles que detêm o poder foi

Resolução comentada da questão 31 do ENEM 2023

Resolução

A questão aborda a relação entre linguagem e poder, destacando como a linguagem pode ser uma ferramenta de exclusão social. O texto de Eliane Brum enfatiza que a linguagem, embora essencial para a comunicação, também pode ser usada para manter privilégios de grupos que dominam formas específicas de expressão. A crítica central está na ideia de que muitos indivíduos são impedidos de compreender a linguagem utilizada por aqueles que detêm poder, como advogados, médicos e cientistas. Assim, a alternativa correta é a que aponta essa crítica aos usos especializados da linguagem, que criam barreiras de entendimento.

Ao analisar a estrutura do texto, percebe-se que Brum não apenas descreve a relação entre linguagem e sociedade, mas também critica a forma como essa relação é manipulada para excluir a maioria da população. O uso de termos técnicos e jargões específicos serve para criar um abismo entre os que têm acesso à linguagem e os que não têm. Portanto, a crítica aos obstáculos impostos por essas linguagens especializadas é o cerne da argumentação apresentada.

Por que as outras alternativas estão erradas

(A) Esta alternativa está errada porque, embora o texto mencione a origem religiosa da linguagem, essa não é a estratégia principal utilizada para convencer o leitor sobre a exclusão social. O foco está na crítica ao uso da linguagem como um meio de poder.

(B) A alternativa está errada pois não se trata de questionar um temor sobre o futuro da linguagem, mas sim de evidenciar como a linguagem atual já serve para excluir e silenciar uma parte significativa da população.

(C) Embora a descrição da relação entre sociedade e linguagem seja presente no texto, essa alternativa não captura a estratégia crítica que Brum utiliza. O objetivo é mostrar como essa relação é problemática, e não apenas descrever.

(D) Esta alternativa é incorreta porque, embora o texto mencione consequências do esfacelamento da linguagem, a estratégia principal é criticar os obstáculos criados pelos usos especializados, e não apenas apresentar suas consequências.

(E) Esta é a alternativa correta — ver acima.

Conceito-chave para revisar

A questão explora o conceito de linguagem como ferramenta de poder e exclusão. A linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento que pode ser utilizado para manter hierarquias sociais. Para aprofundar-se nesse tema, é interessante estudar a relação entre linguagem e poder em obras de autores como Michel Foucault e Pierre Bourdieu.

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