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ENEM 2022 — Questão 40: Língua Portuguesa

Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus

10 de maio Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amavel, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidade de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para os politicos? O senhor Janio Quadros, o Kubstchek e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades. ... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome tambem é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças. A partir da intimação recebida pelo filho de 9 anos, a autora faz uma reflexão em que transparece a

Resolução comentada da questão 40 do ENEM 2022

Resolução

A questão aborda um trecho do diário de Carolina Maria de Jesus, onde a autora reflete sobre a conversa que teve com um tenente da polícia. O conceito de ironia é central para entender a crítica que Carolina faz à situação social e política do Brasil. Ao afirmar que o tenente, apesar de reconhecer a realidade da favela, não toma ações efetivas para mudar essa realidade, ela utiliza a ironia para expor a hipocrisia da autoridade. A frase "Agora falar para mim, que sou uma pobre lixeira" revela seu desdém em relação à falta de ação dos políticos, sugerindo que as palavras do tenente são vazias diante da realidade que ela vive.

A reflexão da autora não é apenas uma crítica ao tenente, mas também um chamado à ação. Ao dizer que "a fome também é professora", Carolina destaca a importância das experiências vividas por aqueles que enfrentam dificuldades. Essa afirmação reforça a ideia de que a verdadeira compreensão da realidade social vem da vivência, e não de discursos vazios. Portanto, a alternativa correta é a (D), que capta essa resposta irônica ao discurso da autoridade, evidenciando a crítica social presente no texto.

Por que as outras alternativas estão erradas

(A) A lição de vida comunicada pelo tenente não é o foco da reflexão de Carolina. Ela critica a falta de ação dele, em vez de valorizar qualquer ensinamento que ele possa ter transmitido.

(B) A predisposição materna para se emocionar não é o tema central da passagem. Carolina expressa uma crítica à situação social e política, e não uma mera emoção relacionada à maternidade.

(C) A atividade política marcante da comunidade não é mencionada no trecho. A autora fala sobre a falta de ação dos políticos e a necessidade de uma mudança, mas não descreve uma atividade política específica da comunidade.

(D) Esta é a alternativa correta — ver acima.

(E) A necessidade de revelar seus anseios mais íntimos não é o ponto principal do texto. Carolina está mais preocupada em criticar a inação das autoridades do que em expor seus desejos pessoais.

Conceito-chave para revisar

A questão testa a compreensão da ironia como recurso literário e sua função crítica em textos sociais. Para aprofundar-se nesse conceito, é interessante estudar obras de autores que utilizam a ironia para criticar a sociedade, como Machado de Assis e, claro, Carolina Maria de Jesus.

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