ENEM 2022 — Questão 32: Língua Portuguesa
A escrava
Maria Firmina dos Reis
— Admira-me —, disse uma senhora de sentimentos sinceramente abolicionistas —; faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira! Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me: — Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!… Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói? Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e será sempre um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Inscrito na estética romântica da literatura brasileira, o conto descortina aspectos da realidade nacional no século 19 ao
Resolução comentada da questão 32 do ENEM 2022
Resolução
A questão aborda a hipocrisia do discurso conservador em relação à escravidão, evidenciada no texto de Maria Firmina dos Reis. A autora critica a contradição entre os valores morais e religiosos que defendem a liberdade e a dignidade humana e a realidade da escravidão, que desumaniza e avilta tanto os escravizados quanto a sociedade como um todo. O discurso da senhora abolicionista destaca a incoerência de se professar crenças que promovem a liberdade enquanto se sustenta a prática da escravidão, que é um "grande mal".
Através de uma linguagem carregada de emoção e indignação, o texto revela como a defesa da escravidão é sustentada por argumentos que não se sustentam moralmente. A comparação entre o sacrifício de Cristo e a liberdade do homem sugere que a aceitação da escravidão é uma negação dos princípios que deveriam guiar a sociedade. Assim, a alternativa (B) se mostra correta ao apontar essa hipocrisia, uma vez que a autora critica diretamente a defesa da escravidão por aqueles que se dizem moralmente superiores.
Por que as outras alternativas estão erradas
(A) Esta alternativa está errada porque, embora o texto mencione a moral religiosa, o foco principal não é a imposição de crenças religiosas sobre os escravizados, mas sim a crítica à defesa da escravidão por parte de pessoas que se dizem abolicionistas.
(B) Esta é a alternativa correta — ver acima.
(C) A alternativa (C) está errada, pois o texto não sugere práticas de violência física e moral em nome do progresso material. A crítica é direcionada à hipocrisia moral e não à promoção de violência como um meio de avanço.
(D) A alternativa (D) é incorreta, pois o texto não relaciona diretamente o declínio da produção agrícola e comercial a questões raciais. A crítica está mais voltada para a escravidão como um obstáculo ao desenvolvimento econômico, sem abordar questões raciais de forma explícita.
(E) A alternativa (E) está errada, uma vez que o texto não ironiza o comportamento dos proprietários de terra. A crítica é mais ampla e se concentra na incoerência moral de defender a escravidão enquanto se professam valores de liberdade e dignidade.
Conceito-chave para revisar
A questão explora a hipocrisia moral presente em discursos que defendem práticas injustas, como a escravidão, ao mesmo tempo em que se proclamam valores éticos e religiosos. Para aprofundar-se nesse conceito, é interessante estudar a literatura abolicionista e as críticas sociais do século XIX, que abordam a contradição entre ideais de liberdade e a realidade da escravidão no Brasil.
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