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ENEM 2022 — Questão 29: Língua Portuguesa

Nu de botas

Antônio Prata

Vanda vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens. Sem dinheiro para criá-la, sua mãe a dera, com seus sete anos, a uma conhecida. Ao recebê-la, a mulher perguntou o que a garotinha gostava de comer. Anotou tudo num papel. Mal a mãe virou as costas, no entanto, a fulana amassou a lista e, como uma vilã de folhetim, decretou: “A partir de hoje, você não vai mais nem sentir o cheiro dessas comidas!”. Vanda trabalhou lá até os quinze anos, quando recebeu a carta de uma prima com uma nota de cem cruzeiros, saiu de casa com a roupa do corpo e fugiu num ônibus para São Paulo. Todas as vezes que eu e minha irmã a importunávamos com nossas demandas de criança mimada, ela nos contava histórias da infância de gata-borralheira, fazia-nos apertar seu nariz quebrado por uma das filhas da “patroa” com um rolo de amassar pão e nos expulsava da cozinha: “Sai pra lá, peste, e me deixa acabar essa janta”. Pela ótica do narrador, a trajetória da empregada de sua casa assume um efeito expressivo decorrente da

Resolução comentada da questão 29 do ENEM 2022

Resolução

A questão aborda a trajetória de Vanda, uma empregada que viveu uma infância marcada por dificuldades e violência. O texto revela como sua vida foi moldada por experiências traumáticas, como a opressão e o abuso que sofreu nas mãos da "patroa". A expressão "representação anedótica de atos de violência" refere-se à maneira como essas experiências são narradas de forma quase casual, como se fossem parte de uma história comum, mas que, na verdade, revelam a gravidade da situação. O uso de uma linguagem leve e até humorística contrasta com a dureza da realidade vivida por Vanda, destacando a violência de forma sutil, mas impactante.

A narrativa do autor, ao contar a história de Vanda, não apenas ilustra a vida de uma empregada, mas também critica a normalização da violência em relações sociais desiguais. Essa abordagem anedótica permite que o leitor reflita sobre a seriedade dos atos de violência que, embora apresentados de forma leve, têm consequências profundas na vida da protagonista. Assim, a alternativa (E) é a que melhor capta a essência do texto, que vai além da simples descrição e provoca uma reflexão crítica sobre a realidade social.

Por que as outras alternativas estão erradas

(A) Esta alternativa sugere que a narrativa se baseia em referências literárias tradicionais. Embora o texto mencione Charles Dickens, isso não é o foco principal. A ênfase está na experiência de Vanda e na violência que ela enfrenta, não na literatura.

(B) A alusão à inocência das crianças da época não é o tema central. O texto destaca a dureza da vida de Vanda e a violência que ela sofre, o que contrasta com qualquer ideia de inocência. A narrativa não se concentra em uma visão idealizada da infância.

(C) A estratégia de questionar a bondade humana não é o principal objetivo do texto. Embora a situação de Vanda possa levar a reflexões sobre a natureza humana, a narrativa se concentra mais na representação da violência e das relações de poder do que em um questionamento direto da bondade humana.

(D) A descrição detalhada das pessoas do interior não é o foco da narrativa. O texto menciona a origem de Vanda, mas o que realmente importa é a sua experiência de vida e a violência que enfrenta, não a caracterização das pessoas do interior.

Conceito-chave para revisar

A questão testa a compreensão da representação da violência em narrativas literárias, especialmente como essa violência pode ser apresentada de forma sutil e anedótica. Para aprofundar-se nesse conceito, é interessante ler obras que abordam temas sociais e a condição humana, como os romances de autores como Charles Dickens, que frequentemente exploram a vida de pessoas em situações de vulnerabilidade.

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